UM
POUCO DA HISTÓRIA DOS IMIGRANTES
Era
uma manhã calma de primavera no porto de Kobe, quando os 781
passageiros do Kasato Maru subiram a bordo.
No início do século XX, o Japão
vivia o ocaso da Era Meiji. Longe da vida urbana de Tokyo, as famílias
das zonas rurais empobreciam com os impostos e a falta de procura
por produtos manufaturados. O avanço rápido da industrialização,
iniciado décadas antes, já havia levado as terras e
o sustento de muitos camponeses. A Guerra contra a Rússia consumiu
boa parte do orçamento nacional, desestabilizando a economia
daquela nação já abalada.
Naqueles tempos, o governo falava de uma terra
distante, além do oceano, onde a riqueza crescia como ouro
nas plantações de café, uma terra onde todos
de boa vontade e disposição para o trabalho poderiam
prosperar. Impelidos pela chance de mudar de vida, famílias
de todo o país empacotaram os pertences e as valiosas lembranças
da sua terra natal e rumaram para Kobe, e logo depois para o Brasil.
O café,
aqui, já era produzido desde o final do século XVIII,
mas levou alguns anos para se tornar o produto brasileiro mais valorizado
no exterior e o Brasil o maior produtor de café do mundo. Foi
na primeira metade do século XIX que se desbravou o velho oeste
e o novo oeste de São Paulo, onde verificaram que as terras
eram extremamente propícias ao cultivo do grão.
Isso
levou o vice-almirante Artur Silveira da Mota a propor em 1880 um
acordo de Amizade, Comércio e Navegação entre
o Japão e o Brasil. Nas capitais, já se falava em abolicionismo
e provavelmente os fazendeiros devem ter se irritado muito quando
a Princesa Isabel assinou o documento que tornava ilegal a escravidão
e os forçava a pagar os trabalhadores dos cafezais.
Por baixo
disso até tinha um pouco de politicagem, mas o importante é
que o governo brasileiro iniciou um grande projeto de acolhimento
de trabalhadores de todo o mundo. Com aquele acordo finalmente assinado,
o deputado Tadashi Nemoto veio conhecer o Brasil. Depois de viajar
um pouco, gostou de tudo o que viu, e avisou as empresas de emigração
japonesas que o Brasil estava apto a receber os trabalhadores.
Levou
até 1907 para Ryu Mizuno, que é considerado o pai da
imigração, acertar os detalhes entre a Companhia Imperial
de Imigração e o governo de São Paulo, e iniciar
os preparativos para a histórica viagem do Kasato Maru.
O
plano dos emigrantes era simples: Ir ao outro lado do mundo, trabalhar
por alguns anos, guardar cada centavo e voltar para casa vitoriosos.
Aquela manhã
em Kobe era tão importante que mesmo um representante do governo
fez questão de ir ao porto. Ele fez um discurso claro e rápido,
para garantir que cada cidadão, ao deixar sua pátria,
a honrasse e zelasse pela dignidade do povo japonês num país
distante, que não causasse nenhuma vergonha aos compatriotas,
pois cada um que estava lá carregava consigo o próprio
Japão.
O
primeiro entrave foi no próprio porto, quando anunciaram que
uma doença comum na época era temida pelos brasileiros.
Alguns foram forçados a ficar.
A partida
carregava de alguma forma tristeza misturada a felicidade tanto das
famílias a bordo, quanto dos que se despediam. Enquanto as
fitas coloridas que uniam os passageiros do navio e os seus familiares
e amigos que ficaram em terra se rompiam, os próprios laços
das famílias se separavam, imaginando que logo voltariam a
se ver.
Para quase
todos, foi a última vez.
Depois de
52 dias de viagem, o Kasato Maru chegou ao porto de Santos, na manhã
do dia 18 de junho de 1908. Todos saíram do navio de banho
tomado e usando suas melhores roupas, os homens de terno alinhado
e barba feita, quase todos os passageiros carregando bandeirinhas
dos dois países.
Depois
da viagem de trem de Santos para São Paulo, a primeira parada
foi na Hospedaria do Imigrante, onde assinavam os contratos de trabalham,
tomavam vacinas e tinham a bagagem revistada. Mesmo ficando lá
por poucos dias, os funcionários brasileiros se impressionaram
com a limpeza e a organização dos japoneses. Segundo
os relatos da época, mal foi preciso varrer o chão dos
quartos.
Essa deve
ter sido a ultima mordomia que tiveram por muito tempo.
A jornada
árdua nas seis fazendas onde os imigrantes foram distribuídos
foi árdua até mesmo para um povo acostumado ao trabalho.
Eles se levantavam duas horas antes do sol nascer e caminhavam por
quilômetros até os cafezais, mesmo as crianças.
Como os fazendeiros ainda se mantinham acostumados ao trabalho com
escravos, as habitações oferecidas eram sujas e impregnadas
de doenças e pulgas e o tratamento dos capatazes podia ser
brutal.
A
comida servida aos trabalhadores era uma ração desagradável,
de gosto forte, e pouco nutritiva. Muitos fugiram, alguns viraram
alcólatras, alguns até morreram... Dizem os números
oficiais que dos 781 primeiros imigrantes, 191 ficaram nas fazendas
por mais de um ano.
Tarde demais,
todos perceberam que foram enganados. Em vez de prosperar, cada família
acumulava dividas maiores com os fazendeiros e não cumpriam
as metas de produção absurdas. Com salários baixos
até para comprar comida, verões rigorosos e safras pequenas,
o sonho de retornar à terra natal, ano após ano, se
apagou dos seus corações.
Foi assim
mesmo, dessa forma triste e um pouco sem esperança, que começou
a jornada que uniu as culturas de dois países tão distantes
e tão diferentes. O Japão se tornou uma parte do que
somos, e nós nos tornamos uma parte da terra do sol nascente.
Cem anos se passaram e o mundo mudou bastante, a distância que
nos separa ficou cada dia menor e os mistérios daquele país
milenar cada dia menos misteriosos.
Essa
é a história que nós vamos tentar contar, desses
cem anos que se passaram e de todas as coisas incríveis que
aconteceram.